sexta-feira, 19 de junho de 2020

As palavras criadas por Shakespeare



Enquanto o vocabulário de Milton gira em torno de 17.000 palavras, e a obra de Homero, incluindo a Ilíada e a Odisseia, não chega a 10.000, Shakespeare tem registrado um léxico cerca de 24.000.

Frequentemente em suas peças, nos deparamos com comentários a respeito das falas de seus personagens: 
- “His words are a very fantastical banquet, just so many strange dishes.” ("Suas palavras são um banquete fantástico, com muitos pratos estranhos", em Muito barulho por nada)
- “Goodly Lord, what a wit-snapper you are!” ("Senhor amado, quão sagaz de sua parte!", em O mercador de Veneza)
- “This is the very coinage of your brain.” ("Isso é coisa de sua cabeça", em Hamlet)

Se levarmos em conta que mais de 1.700 palavras são creditadas a Shakespeare, uma em cada dez palavras em suas peças teria sido criada por ele e, portanto "nova ou incomum para os atores e a audiência", como escreve Fraser McAlpine para a BBC America. Não é nenhuma surpresa que seus diálogos contenham comentários a respeito da estranheza da língua.


Temos dificuldade em compreender Shakespeare hoje em dia. McAlpaine se pergunta como a audiência da época o compreendia, já que muito de seu vocabulário era "coisa de sua cabeça". Há uma profusão de listas de palavras usadas pela primeira vez por Shakespeare. O Oxford English Dictionary, por exemplo, mostra palavras como accessible, accomodation addiction, tendo suas primeiras aparições em suas peças. Pode ser que nem todas as palavras tenham sido inventadas por Shakespeare, mas os editores do dicionário não encontraram registros escritos anteriores à sua obra.

No site ELLO, English Language and Linguistics Online, há um tutorial de como Shakespeare formava novas palavras, fazendo empréstimos de outras línguas - ele conhecia cerca de sete idiomas diferentes; adaptando palavras de outras classes gramaticais, transformando verbos em substantivos, por exemplo, ou vice-versa; e adicionando prefixos e sufixos a palavras existentes.

Ele também criou algumas frases e expressões utilizadas comumente, como: full circle  (de volta às origens), strange bedfellows (aliados improváveis) e method in madness (método na loucura).

Na verdade, é difícil determinar que Shakespeare foi o criador de todas as palvras a ele atribuídas. Muitas delas já existiam em diferentes formas, e outras podem ter existido em contextos coloquiais não-literários - e portanto, não registrados na forma escrita. Ainda assim, é fato que o Bardo criou ou usou pela primeira vez centenas de palavras, escreve McAlpine, "sem precedente óbvio para o espectador, a não ser que ele fosse versado em latim ou grego." A questão, então, persiste: "que diabos a audiência [em sua maioria] inculta depreendia dessa enxurrada de linguagem recém-criada no seu divertimento?".

McAlpine compara os provavelmente embasbacados Elizabetanos assistindo a uma peça de Shakespeare com a audiência de uma "batalha de rap. Daquelas em que você não conhece nenhuma das gírias". A maior parte do sentido ficaria no ar, e ao mesmo tempo pareceria importante e dramático. (Figurino, gestos e encenação, é claro, ajudavam bastante, e ainda ajudam). A analogia é interessante, já que a linguagem utilizada por rappers é, com a mesma frequência coisa de suas cabeças.


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